terça-feira, 23 de maio de 2017

Crítica do filme: 'O Esquecimento (Im)possível'

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Como filmar o que não existe? O que não tem forma, o que falta? Em busca de preencher lacunas sobre seu pai, um militante argentina em época de ditadura, o cineasta argentino Andrés Habegger tenta recriar os caminhos de momentos importantes da vida desse homem que nunca mais viu desde os 09 anos de idade. O Esquecimento (Im)possível , selecionado para o último Festival é Tudo Verdade, é mais um documentário, um retrato, sobre descobertas através do caos da época em que as ditaduras dominavam alguns países.

Os relatos mais profundos chegam através de um antigo diário repleto de detalhes que Andrés ganhou de seu pai, onde o primeiro registrava histórias de seus dias. Assim, uma espécie de trajetória é pré definida, indo atrás de respostas e reviver alguns passos do pai. Alguns parentes que o conheceram, amigos, lugares onde estiveram, gosto pessoais, curiosidades. Um grande quebra cabeça é instaurado e a cada peça conquistada é uma vitória para esse filho em busca de conhecer verdadeiramente quem foi seu pai.

O Esquecimento (Im)possível, aliás, belo nome de filme, desembarca já em seu último ato no Rio de Janeiro, onde as lembranças dolorosas chegam ao seu clímax pois foi onde o pai do protagonista desapareceu. Sem entender como se filma a ausência, as lindas imagens do Rio de Janeiro e todas as ideias de caminhos que o pai pode ter percorrido se chocam com as realidades de documentos que não dizem muito e  apenas uma esperança de resposta através da Comissão da Verdade.


O documentário em questão levanta mais discussões sobre um tema bastante explorado, a época da ditadura militar. Andrés Habegger consegue criar uma perspectiva diferente, sempre com um olhar emocionado se colocando na posição de um filho que vive com lacunas em seu passado. Nada como um bom filme para que as memórias nunca se esqueçam.

Crítica do filme: 'El Mate'

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Quase um teatro filmado, dois atores inspirados, um roteiro que foge do comum e explora as características psicológicas e a vivência dos personagens. El Mate, selecionado para o último Festival de Cinema de Gramado é um filme corajoso e criativo que explora as excentricidades dos personagens em uma sucessão de situações para lá de incomum.

Na trama, um matador de aluguel latino chamado Armando (Fabio Marcoff,) está sozinho em uma casa grande com um homem russo amarrado em uma cadeira. Certa hora, um jovem evangélico chamado Fabio (Bruno Kott) toca a campainha e acaba sendo envolvido nessa curiosa história repleta de situações extremas, assassinatos, filosofias sobre a vida, fé e loucura.

El Mate é basicamente uma clássica comédia de erros com personagens excêntricos. Lembra um pouco algumas ideias vistas em filmes dos irmãos Coen. O roteiro foge do óbvio, se baseia em situações inusitadas que os poucos personagens em cena acabam passando. Com um tom de comédia bem dosado, os arcos são preenchidos com criatividade. Lembranças do passado dos personagens preenchem lacunas de personalidades deixando um ar nostálgico que consequentemente engrossa o caldo dessa história.


O filme ainda não possui data de estreia no Brasil. A interação entre os dois protagonistas em cena é uma das forças dessa curiosa produção que também possui força no roteiro. É um filme que precisa ser aceito, suas ideias fogem do comum.

domingo, 21 de maio de 2017

Crítica do filme: 'Horizonte Bonito'

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Um líder é um vendedor de esperança. Falando sobre futebol, sonhos, confiança, amizade e esperança, Horizonte Bonito navega nos conflitos e choques de duas gerações, uma de um jovem cheio de desejos a serem realizados e outra de uma vida marcada por acontecimentos polêmicos já com o coração repleto de desesperança. Um dos grandes méritos do cineasta suíço Stefan Jäger, responsável pela direção do longa metragem, é aproveitar muito bem e com simplicidade todos os elementos que contornam a história mas também não deixar de abordar diversas críticas sociais de uma região carente do mundo.

Na trama, conhecemos o carismático Admassu (Henok Tadele), um jovem que vive em uma região bastante carente da África que possui um grande sonho de ser um famoso jogador de futebol e dar orgulho para a comunidade onde vive. Quando descobre que um duvidoso e ranzinza agente de futebol Franz (Stefan Gubser) vai aterrissar em sua cidade, ele resolve bolar um plano mirabolante para ganhar a confiança dele e assim pedir que o ajude a realizar seu grande sonho. Assim, a dupla embarca em uma jornada de autodescoberta onde ambos irão aprender mais sobre a vida.

Muitos jovens no mundo todo tem o sonho de ser um jogador de futebol. Para um de nossos protagonistas é muito mais que isso, o futebol é um misto de esperança e oportunidade. A magia da simplicidade transforma uma bola de meia em momentos de diversão e confraternização com os amigos. Admassu não sabe como é o mundo fora do ligar onde vive, replica sonhos por meio de informações que chegam ao lugar onde mora, muitas vezes incompreendido, se vê sozinho dentro de seus sonhos. O ar leve do filme e quase sempre puxando pra comédia, vira o terreno perfeito para a entrada de um personagem totalmente oposto a Admassu, e, assim, as lições chegam por meio das consequências desse choque  de gerações, vivências e maneiras de ver a vida.

Sem previsão para desembarcar no circuito brasileiro, Horizonte Bonito é um grande achado em meio a ótima cinematografia alemã e suas co-produções. Um filme leve que com bastante maturidade e simplicidade se impõe com críticas sociais que atormentam nosso mundo.


Crítica do filme: 'Gifted'

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Todos estamos matriculados na escola da vida, onde o mestre é o tempo. Dirigido pelo cineasta Marc Webb (do ótimo 500 Dias com Ela), Gifted explora um retrato emocionante de uma família de uma garotinha excepcional e todas as variáveis que a cercam. Bem objetivo em seu roteiro, assinado por Tom Flynn, o longa metragem, sem previsão de estreia no Brasil, conta com apaixonantes atuações de Chris Evans (o Capitão América) e Mckenna Grace.

Na trama, conhecemos a rotina de Frank (Chris Evans) um mecânico de barcos autônomo que largou as salas de aula para se dedicar a criação de sua sobrinha, agora com sete anos, logo após o falecimento trágico de sua única irmã. Ao longo dessa jornada que mudou sua vida radicalmente, Frank percebe que a pequena é super dotada e possui uma mente matemática brilhante levando a jovem a vários conflitos na escola que é matriculada. Quando a direção orienta Frank a matricular Mary em uma escola especializada em aulas com grande eficiência nos estudos avançados de matemática, a avó da criança Evelyn (Lindsay Duncan) aparece na história e resolve lutar pela guarda da jovem prodígio levando a todos a uma batalha judicial.

A objetividade do roteiro chama a atenção. Não se perde em nenhum momento e preenche as lacunas deixadas com muito eficiência por meio de diálogos e surpresas que vão aparecendo ao decorrer dos 101 minutos de projeção. Os arcos são divididos cirurgicamente e entendemos as razões e consequências por meio de muitas sequências de emoções que o filme provoca. O carinho do tio/pai Frank e a visão filosófica que ele tem do mundo servem de aplicação e complemento para a mente super desenvolvida da jovem. Frank quer que ela cresça como uma criança comum, que tenha amigos e desenvolva uma vida em sociedade. Já a avó que entra na história de maneira fervorosa é traz consigo mágoas de um passado constante por conta do conturbado relacionamento com os filhos, principalmente com a mãe da menina.


Os conflitos provocados por essas duas linhas do pensar são apresentados, os personagens se constroem e se desconstroem em sua maneira de pensar, principalmente o protagonista. Os coadjuvantes, a professora de Mary e a vizinha de Frank chegam na trama dando novas óticas e opiniões sobre a situação. Quando o caso vira jurídico, novos argumentos são apresentados rumando para um final emocionante onde o amor e suas variáveis tendem ao infinito.


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Crítica do filme: 'Night Will Fall'

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A humanidade tem de acabar com a guerra antes que a guerra acabe com a humanidade. Reunindo imagens aterrorizantes dentro de campos de concentração nazistas já no fim da segunda guerra mundial, além de uma curiosa história sobre filmes que mostrariam a verdade nua e crua das consequências dos atos nazistas, o produtor e cineasta Andre Singer traz aos olhos do planeta uma história muito triste sobre os horrores da guerra. Ao longo dos 75 minutos de projeção somos testemunhas do caos na humanidade em uma época que o mundo estava refém da maior guerra que o planeta já viu.

O documentário, nunca lançado no Brasil, é um retrato assustador sobre a cruel trajetória das pessoas que eram levados aos campos de concentração nazistas na segunda guerra mundial. Já na parte final do conflito, com os aliados ganhando territórios e consequentemente acabando com a guerra, as portas desse verdadeiro inferno foram abertas e câmeras e áudios chegaram para armazenar conteúdo para um futuro filme documentário que seria produzido e dirigido por Alfred Hitchcock e Sidney Bernstein muito para mostrar ao mundo as verdades sobre o conflito e suas consequências.

Night Will Fall, ou em português, A Noite Cairá, é muito objetivo em sua trajetória de menos de 80 minutos.  Primeiro, aborda, por meio de dezenas de testemunhas oculares dos campos de concentração nazistas naquela época, militares que chegavam e encontravam as cenas de terror e pessoas que conseguiram sobreviver. Impressionante os depoimentos dos sobreviventes, cenas terríveis e que não saem da memória dos militares quando chegavam a esses lugares tomados pelo terror e desespero das pessoas presentes neles.


Já em seu segundo arco, o longa metragem explora mais a fundo o filme que seria feito por Sidney Bernstein e que teria a ajuda de Alfred Hitchcock que iriam juntar os dezenas de rolos de filmes que chegavam do epicentro do conflito pelos aliados. Por inúmeras razões, bem explicadas no filme, o projeto acabou não saindo do papel mas todo o esforço e trabalho desses homens de cinema não ficou em vão e Singer traz à luz de todos que quiserem esse belo documentário que mostra mais verdades sobre a terrível década de 40.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Crítica do filme: 'Más Notícias para o Sr.Mars'

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Os velhos acreditam em tudo, as pessoas de meia idade suspeitam de tudo, os jovens sabem tudo. O novo trabalho do cineasta alemão Dominik Moll (O Monge) é antes de tudo um filme que dita suas regras nas entrelinhas da loucura de uma mente reclusa e exausta dos seus caminhos iguais dia após dia. Explorando bastante seu caricato protagonista, Moll transporta para tela, de maneira bem leve (e muitas vezes bem estranha), as dezenas de possibilidades que o ser humano tem todo dia de acordar e sair da rotina estressante.

Na trama, somos apresentados a Philippe (François Damiens), um analista de sistemas que vive uma vida certinha, cheia de regras e pacata em uma cidade francesa. Perto de fazer quase 50 anos sua ex-mulher, uma repórter famosa de uma emissora francesa,  decide de uma hora para outra se mudar para a Bruxelas, deixando os dois filhos adolescentes para ele cuidar. Só isso já seria impactante em sua rotina mas para deixar mais maluca essa história, Philippe começa a enfrentar problemas no seu trabalho, tendo que trabalhar com um funcionário que vai alterar de vez os rumos dessa história.

É preciso paciência e colocar nossas células cinzentas para buscar as associações que o roteiro também escrito pelo diretor busca explorar. Obviamente, a crise de meia idade é o ponto de start para que o fechado protagonista comece a navegar em sua controlada loucura que afeta (e ele também é afetado) a todos que o cercam, desde os novos ‘amigos’ de trabalho, a ira de um supervisor escandaloso, sua relação com os dois filhos, a distância de sua ex-esposa e o aparecimento em tons fantasmagóricos hilários de seus pais.  


Exibido no Festival de Berlim em 2016, esse curioso projeto, que tem como protagonista o excelente e versátil ator belga François Damiens (que está absolutamente fantástico no sensacional Os Cowboys) finalmente chegará ao circuito exibidor brasileiro na próxima semana (18).

Crítica do filme: 'A Cor do Oceano'

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A imigração é uma grande queda de braços dentro de um labirinto social. Escrito e dirigido pela cineasta, roteirista e atriz alemã Maggie Peren, A Cor do Oceano, Die Farbe des Ozeans no original, é uma co-produção alemã/espanhola que traz uma forte luz sobre a situações dos imigrantes no mundo. A produção do ano de 2011, e inédito no circuito exibidor brasileiro, é um filme forte que provoca um abalo sísmico emocional principalmente se nossos olhos e corações associarem aos dias de hoje, principalmente na Europa.

Na trama, conhecemos a jovem Nathalie (Sabine Timoteo), uma turista alemã aproveitando dias de férias nas ilhas canárias (arquipélago espanhol no Oceano Atlântico). Durante uma ida à praia, é surpreendida com a chegada de um barco vindo de algum lugar do mundo trazendo imigrantes clandestinos. Logo que chegam a praia, são resgatados por policiais de fronteira, liderados pelo impiedoso Jose (Álex González). Não conseguindo se desfazer das imagens do ocorrido, Nathalie acaba se aproximando de um dos ocupantes do barco que se encontra em uma nova terra com seu filho pequeno, sem conhecer ninguém.

Longe de ser uma inverdade da vida real, o roteiro do filme nos leva a uma viagem rumo as mais tristes posições políticas, claramente representado pelo cético Jose, que entra em confronto com uma visão bem mais humanitária da turista alemã Nathalie. Os dois pontos de vistas são destrinchados ao longo dos 90 minutos de pura objetividade no roteiro assinado pela própria diretora.

Do primeiro para o segundo arco, já no preenchimento de lacunas dos personagens, vemos as consequências e mais porquês das tristes e nada humanitárias ações do guarda José, muitos impulsos provocados por uma ira sem tamanho que tem contra si mesmo por conta de não conseguir ajudar sua irmã drogada a se recuperar. Em alguns momentos o filme parece que corre um pouco com a transparência desse personagem de tão complexo que se torna. O outro lado da história, Nathalie é confrontada por seu noivo que tem uma visão totalmente protetora e nada amistosa sobre as ações que ela toma em suas decisões de ajudar ou não uma pessoa que nunca viu mas que está passando por sérias dificuldades.


A Cor do Oceano é um daqueles filmes reflexivos, importantes para debates que contam uma história que se ligarmos a televisão veremos a vida imitando a arte.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Crítica do filme: 'O Novato'

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Escrito e dirigido pelo estreante em longas metragens Rudi Rosenberg, o sensível O Novato é um dos projetos mais legais que foram exibidos no último Festival Varilux de Cinema Francês ano passado. Falando sobre a descoberta da juventude com um ar de delicadeza bem impactante esse filme consegue transportar o telespectador para seu passado onde histórias vistas são lembradas. É um belo primeiro filme de Rudi, um longa feito para todas as idades.

Na trama, conhecemos o jovem Benoit (Réphaël Ghrenassia) um pré adolescente que se muda para uma nova escola e começa a sofrer bullying dos garotos mais populares. Tentando vencer seus medos e timidez começa a desenvolver uma linda amizade com outros jovens que, assim como Benoit, também se sentem excluídos na escola. Ao longo do tempo uma forte amizade vai se criando e várias fases da pré adolescência os amigos enfrentarão unidos e mais fortes.

O roteiro é delicado, mostra com muito simplicidade o cotidiano dessa turma super bem humorada. O primeiro beijo, a primeira paixão, as inusitadas situações aos olhos da juventude, tudo isso jogado na telona de uma maneira poética por Rosenberg. O grupo de atores mirins também dão show, há uma clara alegria em cada sequência.


Com circuito bastante reduzido, muito por conta do domínio dos blockbusters norte americanos, e, poucos cinemas que se arriscam a exibir filmes de distribuidoras menores, O Novato é um filme para todas as idades, sem dúvidas, exala sorrisos dos mais jovens aos mais adultos. Merecia mais salas de cinema exibindo.
 
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